Palavras Erradas São Recheadas De Predicados

– Mô?

– Oi?

– Tá acordado?

– Pensativo.

– A gente tá bem, né?

– Claro, linda, por que?

– É que você não fez carinho nela hoje.

– Ué. Você disse que estava com dor de cabeça.

– Mas a dor era na cabeça.

– Mas da última vez que você esteve com dor na cabeça, me evitou o tempo inteiro.

– Mas hoje eu tô com dor de cabeça e com vontade de não te evitar.

– Tá bom, Larissa, mas se você está com “vontade” de não me evitar, significa que ainda há uma chance de você me evitar.

– Seu Frouxo.

– Sua Bipolar.

– Brocha.

– Oxiúros.

– Que? Do que você me chamou?

– Nada. Eu tava pensando naqueles vermes que a gente pega na infância e que dão uma coceira no rabo danada.

– Que coisa mais sem nexo, Gustavo. Aprende a discutir numa boa… para de ser porco.

– Não é nada com você, paranóica. Tava pensando nas palavras erradas do mundo.

– Quer que eu chame um médico?

– Fala a verdade, você não acha que algumas palavras deveriam ser outras?

– Como assim?

– Oxiúros tem nome de galáxia. É poderoso como o infinito. Deveria abrigar planetas e não a bunda de crianças piolhentas. Consigo até imaginar o narrador do trailer dizendo: Um alien de Andrômeda destinado a salvar a Terra dos perigosos alienígenas de Oxiúros.

– Sabe que eu também já pensei nisso?

– No quê?

– Clitóris, por exemplo, tem nome de medicamento. Dr., me vê dez tabletes de Clitóris, por favor. Lambisgóia não tem absolutamente nada de nojento. É um nome super alegre, poderia ser o de uma borboleta. Aliás, borboleta deveria substituir o clitóris, você não acha?

– Caramba, linda, aí eu já não sei, é muita informação… vamos mudar de assunto? Tô com uma saudade da sua borboletinha.

– Engraçadinho. Esqueceu que eu to com dor de cabeça?

 

 

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O Troco

Ribamar é corretor de imóveis, oitenta e cinco anos e completamente ateu. Sua fé é calcada na moral e nos bons costumes. Basta um aperto de mão para que se firme qualquer tipo de contrato. A palavra para este velho sempre valeu muito mais do que um simples papel, o que o torna, nos tempos de hoje, uma pessoa carente de espaço, um alvo fácil das armadilhas do mundo moderno.

Nunca se intimidou com os avanços tecnológicos. Sabia lidar muito bem com suas limitações. Basta-lhe a velha máquina de escrever, uma agenda rigorosamente controlada e um sapato que não lhe cause calos para fazê-lo honrar as penosas contas do mês. Quando a situação aperta, Ribamar usufrui da confiança dos velhos amigos do Leme Tênis Clube, que volta e meia lhe emprestam dinheiro, com a certeza absoluta do retorno.

Entre um aperto e outro, Ribamar vai envergando, levantando e sobrevivendo. Sua vida sempre fluiu em suportável conformidade até descobrir que acabara de tomar um calote na transação de um três quartos em Copacabana, cujo comprador ele mesmo tinha conquistado. Vendo-se sem direção e necessitando de dinheiro para pagar os amigos do clube, Ribamar passa a suplicar ao proprietário que, apesar de ser um executivo do ramo farmacêutico, bem sucedido e quarenta anos mais novo, ambiciosamente ignora seus humildes apelos.

Desesperado por não saber mais o que fazer, Ribamar resolve ameaçá-lo por telefone, o resultado se traduzia em inúmeras risadas que deixavam o velho inconsolável. Afinal, quem se intimidaria com um senhor no fim da vida, magro, corcunda e ainda por cima íntegro e honesto?

Percebendo que seria impossível receber a comissão de 30 mil Reais que lhe era de direito, Ribamar contrata um advogado que sabiamente propõe um almoço entre as partes para que juntas possam chegar a algum acordo.

12:30 – O almoço.

Todos compareceram ao restaurante Bar do Porto. Ribamar, numa desesperança sisuda, fez questão de carregar um olhar pra lá de ameaçador enquanto seu advogado mantinha-se concentrado em aplicar sua política típica dos que sabem resolver impasses. O Executivo, sonso como o esperado, chegou mais tarde. Para surpresa de todos carregando seu filho grande e musculoso cuja feiúra era mais agressiva do que o ar de lutador que ele insistia em impor ao velho Ribamar no intuito de fazê-lo tremer nas bases e desistir da grana.

12: 40 – O advogado dá início à reunião:

– Bom, sabemos que por lei deveria haver um repasse de 5% sobre a venda do apartamento para o meu cliente. Gostaria de saber, senhores, como podemos resolver esta situação de uma forma amena, sem que seja necessário recorremos aos tribunais?

Eis que o musculoso filho interrompe o advogado:

– Em primeiro lugar, quero que o Sr. saiba que este velho caquético que você defende vem ameaçando meu pai e xingando minha família. Vim aqui apenas pra dizer a ele que se ele conti …

Antes que o garotão prosseguisse a verborréia, é surpreendido pelo velho Ribas que puxa a toalha da mesa fazendo com que diversos pratos caiam ao chão. Todos se assustaram com a cena, menos o ancião, que se maninha incontrolável, rosnando feito um leão e dizendo que iria matar o garoto e o pai se não lhe pagassem o que lhe era devido. O moleque, assustado com a virilidade do “caquético”, borrou-se de medo e danou a correr feito uma gazela amedrontada, deixando o próprio pai na mão. Percebendo que a situação se agravaria, o advogado entra em ação na tentativa inútil de baixar a testosterona do velho:

– Calma, Ribas! Não se resolve nada assim.

– Me segura, Dr., me segura que eu vou matar esse moleque sem vergonha.

– Mas desse jeito você não conseguirá seu dinheiro de volta.

– Aí é que tá, Dr. Não quero mais um centavo. Eu só quero matá-los devagar. Vou precisar dos seu serviços, Dr.

– Pra quê, Sr. Ribas?

– Pra me tirar de lá da cadeia porque eu vou fazer besteira.

Aproveitando-se de um leve momento de calmaria, o advogado saca R$ 400,00 e dá para o gerente do restaurante como forma de esquecer o incidente e pagar o prejuízo do quebra-quebra.

– Inexplicavelmente, quando menos se espera, o musculoso amedrontado retorna, dessa vez com quatro policiais que levaram todos para a delegacia. Ribas foi o último a prestar depoimento. O advogado, sabendo da língua afiada do velho, suplica em seus ouvidos:

– Ribas, meu filho, por Deus, não vá falar em matar e, por favor, negue todas as ameaças mais pesadas que você falou no restaurante porque você sabe que são da boca pra fora. Vai lá que o delegado tá te chamando. Dá-se início ao interrogatório:

– O Sr. que é o Ribamar?

– Sim, seu Delegado.

– Quer dizer então que o senhor tentou, sozinho,  agredir o fortão ali e o pai dele também?

– Positivo.

– hum… e diz aqui que o senhor jurou que iria matá-los, isso é verdade?

– Não. Anotaram errado.

– ah… bem logo vi. O Sr. parece ser um sujeito bom.

– Eu vou esquartejá-los. Começarei atirando pela perna, depois joelhos, até chegar na cabeça e torturar um a um, mandando cada pedaço do corpo para o quinto dos infernos, de repente lá eles aprendam a ser dignos e honrados.

O Delegado imediatamente percebe que os policias estavam dando silenciosas risadas das declarações absurdas do velho e resolve por fim ao deboche através de um solidário tapa na mesa que os expulsou da sala. E o interrogatório prosseguiu, dessa vez de forma reservada.

– O Sr. teve muita coragem ao colocar os dois pra correr. Meu pai era corretor feito o senhor e há dois meses faleceu de infarto. Era um bom sujeito, cabeça dura e cheio de atitude como você, o problema é que fumava muito e adorava prostíbulos. Acredita que ele foi encontrado morto na cama de uma prostituta aqui do Leme?

– Ribamar começa a rir para surpresa do delegado e dispara: O Sr. é filho do Valtinho? Meu Deus, você era um guri. Como você cresceu… lembro bem de você e de seu irmão, duas crianças encapetadas, como o tempo passa…. depois o teu pai sumiu sem deixar notícias. Sempre mulherengo e misterioso. Garoto, teu pai e eu temos muitas histórias. Aquele era o safado com a alma mais cheia de vida que conheci. Era um homem intenso. Todos gostavam dele.

E a conversa prosseguia. O depoimento transformou-se num adorável bate papo. Do lado de fora, um inconformismo por parte do filho sarado e de seu pai ganancioso que não entendiam o volume daquelas gargalhadas que irradiavam a entediante delegacia. Três horas depois o Delegado chama todos os policiais e diz que vai sair com Ribamar para jantar.

O proprietário caloteiro, espantado com a cena, indaga em tom arrogante:

– Delegado, como está o procedimento? Vocês registraram a ameaça que esse velho maluco me fez?

– Não, infelizmente deu uma pane em nosso sistema, não há como registrar nada hoje, mas pode ficar tranqüilo, estou de olho em tudo, ouviu bem? Em tudo! Isso inclui você e o machão do seu filho. Deu pra entender bem ou vou ter que ser mais claro? Não me faça investigá-los.

– E assim a tarde se encerrou. Ribas foi salvo por um triz e ainda recebeu um belo jantar. No dia seguinte, acordou na intenção de ir ao banco tentar negociar sua dívida quando, de repente, encontra um chegue do proprietário no valor de cinqüenta mil Reais com a seguinte informação:

Segue o cheque do babaca. Os juros são presente meu.
Você traz alguma razão para eu crer em todo esse lixo.
Obrigado. Nunca mais irão importuná-lo.
Aceita uma sinuca na quarta que vem?
Queria ouvir mais histórias sobre meu pai.

Um grande abraço,
Delegado Oliveira.

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Do Massante das Massas As Tentações Da Maçã

Ele sabia,
desde o começo sabia que não pertenceria aquele mundo. Cansado de envergonhar-se da própria desobediência, lançou aos previsíveis eventos uma lasca de vontade derradeira. Amontoou os restos de cinzas que o incomodavam e soprou-as afim de se libertar de uma delicada crença em algo que volta e meia insistia em vislumbrar o sombrio. Apostou no valor do vento, e sem nada a perder, sorriu.

E eis que ela surgiu.
Curiosa para farejar os novos goles de simpatia que dele desciam feito milagre inesperado, o abordou. Abusando de uma imprevisibilidade intrigante, atirou sobre sua áurea sensíveis punhados de honestidades maliciosas guiadas por uma vaidade que fazia jus a natureza de seus belos cabelos castanhos e, fingindo um não querer, vendeu-lhe sabiamente a clássica e instigante desesperança cínica. Sem se intimidar, ele não a comprou. E sem nada a perder, ela sorriu.

Partiram dispostos a encarar o presságio daquele contato intenso. Não havia tempo e nem vontade de digerir o mundo alheio. Simplesmente viveram e, cientes de suas forças, resolveram crer que através do calor de seus  hálitos viciados em promessas indevidas poderiam se render ao ápice escondido entre a palavra maldita e o desesperado tremor de pernas em busca de alívio. E então se fez manhã. O sol despertou seus corpos e numa atitude nobre como a madrugada nua se despediram do acidente oportuno confiantes de que seria impossível ignorar o inesquecível.

Sem nada a perder.

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Tensões de um doce cérebro nervoso

– Regis, onde você está?
 
– Voltando pra casa dos meus pais.
 
– Mas por que?
 
– Tá doida, Camila? Você mandou eu sair de casa.
– E você foi?

– Claro.

– Quanto orgulho bobo. Volta logo, vai.

– Não é orgulho. É dignidade. Se fosse orgulho eu não atenderia o celular.

– Desculpa, amor. Perdi a cabeça. Você sabe que me deixa insegura, que sou assim… meio doida, mas é porque sou louca por você e já tô morrendo de saudade. Volta, vai.

– Desde que você pague o táxi, Camila. Porque já é a terceira vez em dois meses
– Pago o Táxi, pago o filme, pago a pizza e outra coisa que você adora.

– Aí é covardia. Só de pensar nisso meu coração se enche de perdão.

– Então volta logo que eu tô carente.

– Quer que compre pão de queijo?

– Quero.

– Tá bom. Daqui a pouco tô aí.

– Mô?

– Oi.

– Quem taí do teu lado?

– O motorista do táxi.

– Mas eu ouvi uma voz de mulher…

– É o rádio, Camila.

– Regis, quem é que está do seu lado!!!? Não mente!!!

– É o rádio, Camila, porra.

– Tá bom, Regis, tá bom… Você tá achando que sou otária. Volta pra casa dos teus pais, volta.

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Dos Parafusos as Paranóias

– O que foi, Lila?

– Nada.

– Nada? Desde quando temos segredos?

– É que eu tô um pouco preocupada com a vida. Só isso.

– Amor… vai dar tudo certo com a monografia, fica calma.

– É. Eu sei…

– Você é boa no que faz. Não será diferente desta vez.

– Não é isso.

– Então o que é que te aflige, caramba?

– Meus pais.

– Não tô entendendo mais nada.

– Eles querem que eu more um ano nos EUA após me formar.

A pausa foi tão breve quanto o desconforto entre os silêncios. Mas o assunto proseguiu

– Mas e você? Gostaria de ir?

– Não sei. Tô confusa. É o meu futuro em jogo…

– Amor. Se você acha que é importante, então vai. A fase de apostar é agora. Você precisa investir em você enquanto há tempo, dinheiro e oportunidade.

– É. Acho que você tem razão, mas não vamos pensar nisso agora. Eu tô com um pouco de dor de cabeça. Vou pra casa.

– Quer que eu te deixe?

– Não. Depois a gente conversa.

– Então tá. Você quem sabe…

Mesma noite. Duas da manhã. Botequim Informal – Leblon. Lila desabafa com Patrícia e Bianca, amigas de confiança

– Ele é um egoísta. É isso que ele é. Não lutou por mim. Não esboçou qualquer sentimento de tristeza, de perda, de saudade… Tudo o que ele queria era que isso acontecesse. Homem nunca tem coragem pra terminar. É impressionante. Era só ele ter me falado, mas não. Ficou com aquele papinho “meia bomba” de que seria melhor para o meu futuro. Só se for na cabeça dele. Aquele covarde. Não confio mais em homem nenhum, tô cansada de me iludir.

– Eu te falei, Lila. São todos iguais. Mas você fica romanceando a vida. Só os uso, literalmente, pra tapar buraco. E olha que tô pegando um gatinho da zona norte que tá tapando é tudo.

– Que horror, Patrícia. Sem vulgaridades hoje, por favor. O que a Lila tá sentindo é sério. Mas acho que você, Lila, tá confundindo muito as coisas. O Dinho é um cara super legal, tem um coração bom. Ele pode estar pensando no seu melhor e você é quem não quer aceitar. Não acredito que ele esteja fugindo ou se aproveitando da situação só pra pular fora.

– Ai, gente…. vocês estão me deixando mais confusa, minha cabeça tá um parafuso. Garçom, traz a conta, por favor.

Mesma noite. Três da manhã. La Chicholina – Copacabana. Dinho desabafa com Pereira e Helinho. Amigos de confiança

– Cara, não tive escolha. Se eu falo para ela não ir, mais cedo ou mais tarde ela jogaria isso na minha cara. A cada discussão eu escutaria ela dizer que deixou de cuidar do futuro por minha causa e eu seria para vida toda o egoísta da relação, o possessivo, o dominador… Além do mais, tô achando muito estranho essa atitude repentina. Isso tá me cheirando a fuga. Tem outro na parada.

– merrrrmão… tu tá maluco? Vai ficar preocupadinho com mulher? Olha só essas putas dançando bem na tua frente. Acorda. Vai se envolver pra quê? Casar pra quê? O mundo é materialista desde os tempos medievais. E se tu quer saber, a Lila nunca foi muito confiável. Aliás, mulher nenhuma. É só tu observar as amigas dela, tudo um bando de safadas, vivem bêbadas por aí, se perdendo nas noitadas. Mulher gosta é de dinheiro, Dinho. Já te falei mil vezes. Por isso que eu só aplico o meu suor nas profissionais do sexo. E se eu fosse tu, meu brother, deixava de ser inocente e sonhador e escolhia logo uma buceta bem gostosa. Aproveita que eu tô bancando hoje, só pra tu ficar feliz.

– Pega leve com o cara, Helinho. Ninguém veio aqui pra comer mulher. E também não é assim. A Lila sempre deu apoio pro Dinho. É uma garota bacana que merece todo o nosso respeito. É super educada, sociável e não há pessoa no mundo que não adore ela. Portanto vê se pára de uma vez com essa mania amargurada de resumir a qualidade da mulherada a tua cama. Tem muita coisa boa por aí e a Lila é uma delas. Dinho, tu é meu irmão, cara. Pára e me escuta. Eu acho que a Lila tá confusa com a pressão vinda dos pais… tenta conversar. Não joga tua felicidade fora por puro orgulho.

– Galera, valeu pela força, mas esse papo tá me deixando ainda mais paranóico. A energia podre desse lugar também não tá ajudando. Querem saber? Tô indo pra casa. Pereira, paga a conta aí que depois a gente acerta.

E a distância das dúvidas se fez menor do que o significado entre as fronteiras. Lila foi para os EUA. Dinho continuou seguro de seu mundo. Junto com eles um turbilhão de incertezas que, ironicamente, os tornaram ainda melhores.

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So-la na bunda

– Bom dia.
– Bom dia. Vim aqui para a entrevista.
– O Sr. é o Rafael?
– Que senhor que nada, fique à vontade para me chamar de Rafael.
– Senhor. Você tem meia hora para fazer o teste de raciocínio lógico e mais uma para a redação.

– Desculpe. Deve haver algum engano aqui. Vim para uma entrevista em que me candidato ao cargo de Analista de Marketing.
– Exato, senhor.
– Ok, senhora. O problema é que não sei mais fazer esse tipo de provinhas.
– Não entendi.
– Da última vez que fiz uma conta de dividir no papel eu tinha quatorze anos. Esse teste que você me deu envolve contas de MDC, MMC, fração, conjunto e eu tô ficando desesperado com essas pegadinhas. Vocês querem testar minha memória em relação ao ginásio, é isso? Com certeza tem psicologia das grandes aqui. Alguma espécie de análise comportamental. Aonde voces querem chegar? Ok, já entendi, querem testar se vou ou não perder as estribeiras? Pois saiba que isso não vai acontecer.

– De maneira alguma, senhor. Temos outros métodos para avaliar temperamentos e pelo visto o seu não anda nada bem. O que queremos é testar o seu raciocínio lógico. Só isso.
– Que raciocínio lógico? Quem raciocina por mim é o Excel. Me dá ele aqui e sou capaz de achar a razão dos seus cabelos estarem mais escuros hoje.
– Jura? Você reparou?
– Claro, linda. Você tem traços finos e um sorriso que faz as pessoas se sentirem confortáveis ao seu redor. O rubro lhe deu muito mais vida.
– Não exagera, menino. Como soube dos meus cabelos?
– Feeling, mulher. Duvido que você ache um candidato com essa capacidade assertiva. Coisas assim são dons que a pessoa carrega com ela. Não se aprende da noite pro dia.
– Ai meu Deus. Que bom. Tomara que o Mauro repare. Tô preocupada de perder pra esposa dele.
– O Mauro é o seu amante?
– Ei, vê lá como fala. Ele é meu affair. Você é bem doido, menino. Gostei da sua sinceridade. Vou te passar o gabarito de algumas questões. Mas me conta uma coisa, como descobriu sobre o meu cabelo?
– Como você conheceu o tal do Mauro?
– Ai… ele é um safado, mas eu ainda confio nele. Sinto que ele gosta de mim. Um dia ele será só meu. Todo meu.
– Gosta mesmo?
– Com certeza. A vaca da namorada dele é muito sem sal. Todas as minhas amigas acham o mesmo.
– Entendo. E provavelmente ele só vai ao cinema com você, aos melhores restaurantes com você, só anda de mãos dadas com você, só fala de você para os amigos e provavelmente tem uma foto sua na mesa em que trabalha já que não consegue passar um dia sem te ver. Acertei?
–  Tá querendo me esculachar?
– Que isso, senhora. Foi apenas uma pergunta.
– Ele me liga todas as quintas se você quer saber. O problema é que ele vive bastante ocupado o resto da semana, mas já me disse que logo-logo terminará com a esposa para vivermos felizes.
– Tomara, senhora. Torço muito por você. E há quanto tempo vocês são amantes?
– Seis anos.
– Toma.
– Que isso? Já terminou? Não vai copiar as respostas?
– Desanimei.
– Aonde você vai?
– Pegar uma praia.
– Ei… só me diz sobre o cabelo. Como soube?
– Às vezes, em situações de desespero, é preciso escolher aonde chutar, senhora. Se não fosse o cabelo seriam as unhas, se não fosse as unhas, a maquiagem ou qualquer peça de roupa que parecer mais nova.
– Não entendi.
– Relaxa. Você vai entender assim que receber um bonito pé!
– Que menino louco. Que pé? Volta aqui. É mole?

E na saída do prédio…-

– Alô, Maurão? Cara, acho que conheci a mulher que  tu sai todas as quintas. Bicho, como é que tu aguenta? Além do mais,  o vermelho borgonha não caiu bem nela.
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A cobertura

Por mais que eu não possa, sua graça me convida. Penso em procurá-la todos os dias só que ultimamente ando me esquivando dessas danças covardes em que só há um admirador. Eu quero troca justa e te ver fechar os olhos dessa maneira chega a ser brutal. E sabe por que? Porque você me amedronta até quando se gesticula e eu tô farto desse tipo de vício que me obriga a querer protegê-la dos fantasmas diários que insistem em se esconder. Dorme, moça. Não te preocupes. Sou escravo de uma insônia maldita e ver-te deitada é recompensa digna, com ou sem teu corpo.

Pra quê foi me olhar com tanta luminosidade? Estava mais seguro sentado em minha inércia, com minha cerveja quente, vendo-a expor sua nostalgia hereditária na forma da mais perfeita divisão. Se não fosse aquela dança. Se você não me desse à oportunidade de sentir tua pele, não estaria aqui, agora, me perguntando novamente se valeria ou não a pena errar. Eu sei, fraquejei, não deveria deixar o portão entreaberto, mas agora está ventando e eu não tenho mais remédios pra enfrentar este sereno com cheiro de perigoso acalanto.

Não resisti e fui tocá-la, é verdade. Mas não ao ponto de me sentir invadido. Conheço bem os riscos desse tipo de calor que não se traduz. Portanto não me entenda mal. Foi o mundo quem me obrigou a ficar atento a sinais que enfrento com sabedoria frouxa, pois como disse, minha linda, a dança é covarde.

Obrigado. Ficarei com as músicas. Quase sempre as mesmas. Agora com uma pequena diferença daquilo que nos sobra: a sublime pausa. E eu, novamente, aqui, estático, sem saber como prosseguir nessa madrugada intensamente passageira, me satisfaço.

Dorme, moça,
que amanhã é dia de nos ignorarmos.

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